MARILIA DE DIRCEU

 

MARILIA DE DIRCEU

Ária VIII

Poesia de Thomaz Antonio Gonzaga

Música: Marcos Portugal

 

 

Ah! Marilia, que tormento

Não tens de sentir saudosa!

Não podem ver os teus olhos

A campina deleitosa,

Nem a tua mesma aldeia,

Que tiranos não proponham

A inda inquieta idéia

Uma imagem de aflição.

  Mandarás aos surdos deuses

  Novos suspiros em vão.

 

Quando levares, Marilia,

Teu ledo rebanho ao prado,

Tu dirás: aqui trazia

Dirceu também seu gado.

Verás os sítios ditosos

Onde, Marilia, te dava

Doces beijos amorosos

Nos dedos da branca mão.

  Mandarás aos surdos deuses

  Novos suspiros em vão.

 

Quando à janela saíres,

Sem quereres, descuidada,

Tu verás, Marilia, a minha,

A minha pobre morada.

Tu dirás, então, contigo:

"Ali Dirceu esperava

Para me levar consigo.

E ali sofreu a prisão."

  Mandarás aos surdos deuses

  Novos suspiros em vão.

 

 

Quando vires igualmente

Do caro Glauceste a choça,

Onde alegre se juntavam

Os poucos da escolha nossa,

Pondo os olhos na varanda

Tu dirás de mágoa cheia:

"Todo o congresso ali anda,

Só o meu amado não."

  Mandarás aos surdos deuses

  Novos suspiros em vão.

 

Quando passar pela rua

O meu companheiro honrado,

Sem que me vejas com ele

Caminhar emparelhado,

Tu dirás: "Não foi tirana

Somente comigo a sorte;

Também cortou desumana

A mais fiel união.

  Mandarás aos surdos deuses

  Novos suspiros em vão.

 

Numa masmorra metido,

Eu não vejo imagens destas,

Imagens, que são por certo

A quem adora, funestas,

Mas se existem separadas

Dos inchados, roxos olhos,

Estão, que é mais, retratadas

No fundo do coração.

  Também mando aos surdos deuses

  Tristes suspiros em vão.