MARILIA DE DIRCEU

 

MARILIA DE DIRCEU

Ária VII

Poesia de Thomaz Antonio Gonzaga

Música: Marcos Portugal

 

 

Arde o velho barril, arde a cabeça,

Em honra de João na larga rua.

O crédulo mortal agora indaga

Qual seja a sorte sua.

 

Eu não tenho alcachofra, que á luz chegue,

E nela orvalhe o céu de madrugada,

Para ver se rebentam novas folhas

Aonde foi queimada.

 

Também não tenho um ovo, que despeje

Dentro d'um copo dágua, e possa nela

Fingir palácios grandes, altas torres,

E uma nau à vela.

 

Mas ah! Eu bem me lembro, eu tenho ouvido

Que na boca um bochecho de água tome,

E atrás de qualquer porta atento esteja.

Até ouvir um nome.

 

Que o nome, que primeiro ouvir, é esse

O nome que há de ter a minha amada:

Pode verdade ser; se for mentira,

Também não custa nada.

 

Vou tudo executar, e de repente

Ouvi dizer o nome de Filena:

Despejo logo a boca: ah! Não sei como

Não morro ali de pena.

 

Aparece Cupido: então soltando

Em ar de zombaria uma risada:

"E que tal, me pergunta, esteve a peça?

Não foi tão bem pregada?

 

Já te disse, que Marilia é tua,

Tu fazes do meu dito tanta conta,

Que vais acreditar o que te ensina

Velha mulher já tonta.

 

Humilde lhe respondo: "Quem debaixo

Do açoite da fortuna aflito geme,

Nas mesmas coisas, que só são brinquedos,

Se agouram males, teme."