MARILIA DE DIRCEU Ária II Poesia de Thomaz Antonio Gonzaga Música

 

 MARILIA DE DIRCEU
Ária II
Poesia de Thomaz Antonio Gonzaga
Música: Marcos Portugal  

 

Já, já me vai, Marília, branquejando

Louro cabelo que circula a testa;

Este mesmo, que alveja, vai caindo,

E pouco já me resta.

 

As faces vão perdendo as vivas cores,

E vão-se sobre os ossos enrugando;

Vai fugindo a viveza dos meus olhos;

Tudo se vai mudando.

 

Se quero levantar-me, as costas vergam;

As forças dos meus ombros já se gastam;

Vou a dar pela casa uns curtos passos,

Pesam-me os pés, e arrastam.

 

Se algum dia me vires desta sorte,

Vê que assim me não pôs a mão dos anos;

Os trabalhos, Marilia, os sentimentos,

Fazem os mesmos danos.

 

No calmoso verão as plantas secam;

Na primavera que aos mortais encanta,

Apenas cai do céu o fresco orvalho,

Verdeja logo a planta.

 

Mal te vir, me dará em poucos dias

A minha mocidade o doce gosto;

Verás burnir-se a pele, o corpo encher-se;

Voltar a cor ao rosto.

 

A doença deforma a quem padece;

Mas logo que a doença fez seu termo,

Torna, Marilia, a ser quem era d'antes,

O definhado enfermo.

 

Supõe-me qual doente, ou qual a planta,

No meio da desgraça, que me altera;

Eu também te suponho qual saúde,

Ou qual a primavera.

 

Se dão esses teus meigos, vivos olhos

Aos mesmos astros luz, e vida às flores,

Que efeitos não farão, em quem por eles

Sempre morreu de amores?